A partir dos 45 anos, muitas mulheres começam a perceber mudanças que vão além da irregularidade do ciclo menstrual. Ansiedade, irritabilidade, insônia, alterações de humor, fadiga e dificuldade de concentração podem surgir durante a transição menopausal e, por apresentarem características semelhantes às de quadros de ansiedade e depressão, nem sempre são associados ao climatério. Para a ginecologista Roberta Brando, essa sobreposição de sintomas exige uma avaliação mais ampla, que considere tanto a saúde mental quanto as alterações hormonais próprias dessa fase.
A perimenopausa, período que antecede a menopausa, é marcada por oscilações hormonais e pode ser acompanhada de sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos, além de distúrbios do sono e mudanças emocionais. Estudos apontam que essa fase está associada a uma maior vulnerabilidade para sintomas depressivos. Uma meta-análise apresentada na diretriz alemã S3 sobre perimenopausa e pós-menopausa, que analisou 14 comparações, encontrou odds ratio (OR) de 1,89, com intervalo de confiança de 95% entre 1,54 e 2,31, indicando maior ocorrência de sintomas depressivos durante a transição menopausal.
A ginecologista explica que a semelhança entre os sintomas pode dificultar a identificação dos fatores envolvidos. “Muitas vezes, a mulher procura inicialmente atendimento médico por ansiedade, insônia ou alterações de humor, mas nem sempre esses sintomas são avaliados dentro do contexto do climatério. Não se trata de negar a existência da depressão, mas de compreender que ansiedade, irritabilidade, insônia, fadiga e alterações cognitivas também podem fazer parte do climatério”, afirma Roberta Brando.
Segundo a especialista, a investigação não deve se limitar à realização de exames laboratoriais. É importante compreender a história clínica da paciente, as mudanças no ciclo menstrual, a presença de sintomas vasomotores, os distúrbios do sono e outros sinais característicos da transição menopausal. A avaliação individualizada pode ajudar a diferenciar sintomas relacionados às alterações hormonais de quadros psiquiátricos que necessitam de tratamento específico.
A médica ressalta, ainda, que a possibilidade de influência hormonal não significa que toda depressão nessa faixa etária seja causada pela menopausa. As diretrizes internacionais destacam que os sintomas do climatério podem coexistir com a depressão, e mulheres na perimenopausa também podem desenvolver ou apresentar recorrência de transtornos depressivos. Nesses casos, psicoterapia, antidepressivos ou outras estratégias terapêuticas podem ser necessários, conforme a avaliação profissional.
“A mulher pode passar anos tratando ansiedade ou depressão sem saber que existe uma alteração hormonal por trás daquele quadro. E isso não significa que antidepressivos sejam inadequados para mulheres na menopausa, mas que a investigação precisa considerar também a transição hormonal”, completa a ginecologista.
A terapia hormonal, por sua vez, não substitui automaticamente o tratamento psiquiátrico. Sua indicação depende de uma avaliação individualizada, que deve considerar os sintomas, o histórico clínico e os possíveis benefícios e riscos para cada paciente. O objetivo é evitar que a mulher receba uma abordagem limitada a apenas uma parte do problema.
Para Roberta Brando, reconhecer a possibilidade de oscilação hormonal pode contribuir para uma condução mais adequada dos casos. “Reconhecer a possibilidade de oscilação hormonal pode mudar a condução do caso e evitar que sintomas do climatério sejam tratados isoladamente, sem que a mulher receba uma avaliação capaz de considerar todas as causas envolvidas”, finaliza.











