A VIDA ACONTECE POR AQUI

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Museu da Pessoa leva exposição sobre economia criativa à Praça Firmina Santana, em Paracatu

Flávio Costa - artista visual e professor - crédito Click Filmes Institucional.
Mostra “Economia Criativa: encontros, memórias e partilha” reúne histórias de paracatuenses que transformam saberes tradicionais em riqueza simbólica e desenvolvimento cultural

Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, recebe a exposição “Economia Criativa: encontros, memórias e partilha”, que convida o público a conhecer histórias de mulheres e homens que transformam o cotidiano em criação, o trabalho em arte e a tradição em valor simbólico. Realizada pelo Museu da Pessoa, com patrocínio da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, a mostra ocupa a Praça Firmina Santana e segue em cartaz até o dia 20 de fevereiro, com acesso gratuito.

Inspirada na metáfora da pedra filosofal, símbolo da alquimia que transforma o simples em valioso, a exposição propõe um olhar contemporâneo sobre a economia criativa no interior do Brasil. Em Paracatu, práticas éticas, estéticas e comunitárias funcionam como tecnologias ancestrais capazes de transmutar memória em presente e conhecimento em ouro simbólico. O saber, nesse contexto, é apresentado como o bem mais precioso, construído a partir da escuta, da partilha e da transmissão oral entre gerações.

A mostra apresenta, por meio de totens expositivos, as trajetórias de oito protagonistas que revelam como a criatividade emerge da vida cotidiana. São artistas, mestres de ofício, educadores, comunicadores e guardiões de tradições que, com seus saberes, geram valor cultural, social e econômico, mantendo viva a inteligência coletiva da cidade.

Para Sônia Helena Dória London, coordenadora do Educativo do Museu da Pessoa, a exposição reforça o papel da escuta como ferramenta de transformação social. “Essa mostra parte da convicção de que os saberes populares são fundamentais para compreender quem somos enquanto sociedade. Ao dar visibilidade a essas histórias, celebramos a economia criativa como uma prática viva, enraizada na memória, na oralidade e nos vínculos comunitários”, afirma.

Entre os destaques está a história de Maria Ângela, quitandeira reconhecida pelos sabores que carregam memória e afeto. Para ela, cozinhar é preservar princípios e ancestralidade. “Eu acho que Paracatu é pão de queijo, é Mané Pelado, é biscoito bem feito, com aquele queijinho puxando. Isso é Paracatu. É quitanda”, conta.

O artista visual e professor Flávio Costa, surdo desde a infância, encontrou na pintura uma forma potente de comunicação. Inspirado por mestres como Picasso, Portinari e Van Gogh, ele transforma o silêncio em linguagem visual. “Nós, surdos, somos mais visuais”, explica. “Gosto de criar imagens no meu pensamento e transformá-las em pintura.”

A aquarelista Janaína Campos construiu sua trajetória artística sem deixar Paracatu, apostando na arte como realização pessoal. “Quando estou criando, me sinto em paz, sem ruído. Parece que minha cabeça foi feita para criar”, relata.

Solano Benedito fez da própria voz um instrumento de trabalho e conexão social. Percorrendo estradas e comunidades, ele leva mensagens, recados e poesias de forma espontânea. “É tudo ao vivo, na hora. Sem roteiro”, diz. Seu sonho é coletivo: ajudar pessoas a realizarem seus próprios sonhos.

A tradição da rapadura ganha protagonismo na história de Ronaldo Lopes, o Ronaldo Planeta, que encontrou na terra e no manejo da cana uma alquimia própria. Seu engenho, hoje, integra o roteiro turístico da cidade. “A qualidade da rapadura depende muito da terra. Se ela não ajuda, não tem manejo que resolva”, explica.

Educadora e articuladora social, Mércia Vasconcelos dedicou a vida à formação de mulheres e à geração de renda por meio do saber manual. Idealizadora do Projeto Borboleta, ela vê o aprendizado como processo de transformação. “A ideia é deixar de ser lagarta para virar borboleta”, resume.

A cultura popular e a ancestralidade quilombola aparecem na trajetória de Benedito da Conceição, mestre da caretagem, iniciado ainda criança nessa manifestação cultural que une música, fé e resistência. “Eu venci a minha batalha. E nós todos vamos vencer”, afirma.

Fechando o conjunto de narrativas, o músico João da Silva, conhecido como João do Forró, traduz em versos e melodias uma vida marcada pelo trabalho na roça e pela persistência. “Minha caneta foi o cabo da enxada / Meu professor foi meu violão”, resume em poesia.

Ao reunir essas histórias, a exposição propõe uma reflexão sensível sobre o Brasil profundo, onde a criatividade nasce da convivência, da fé, da tradição e do afeto. Segundo Eduardo Valente, da Gestão de Sustentabilidade do Museu da Pessoa, o projeto evidencia que a economia criativa vai além da geração de renda. “Ela fortalece identidades, preserva patrimônios imateriais e mostra que o verdadeiro ouro está no conhecimento compartilhado e na capacidade de criar a partir da própria realidade”, destaca.


Serviço

Exposição “Economia Criativa: encontros, memórias e partilha”
Visitação: até 20 de fevereiro
Local: Praça Firmina Santana – Paracatu (MG)
Entrada: gratuita

Realização: Museu da Pessoa
Patrocínio: Kinross

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