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Até 80% das mulheres podem sofrer com ondas de calor antes da menopausa

menopausa
Queda do estradiol desregula o controle térmico do organismo e pode impactar sono, humor e até a saúde cardiovascular feminina

A menopausa representa uma fase natural da vida da mulher marcada por importantes mudanças hormonais que afetam diferentes sistemas do organismo. Entre os sintomas mais conhecidos estão as ondas de calor, chamadas clinicamente de fogachos. Apesar de frequentemente tratadas como um desconforto passageiro, essas manifestações têm impacto significativo na qualidade de vida e podem indicar alterações metabólicas e cardiovasculares associadas ao período.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a maioria das mulheres apresenta sintomas vasomotores durante a transição menopausal. Estudos epidemiológicos da Study of Women’s Health Across the Nation apontam que entre 60% e 80% das mulheres relatam episódios de ondas de calor em algum momento do climatério.

Segundo a médica ginecologista Roberta Brando, especialista em estética íntima e terapia hormonal feminina, os fogachos estão diretamente relacionados à queda do estradiol, principal forma de estrogênio produzida pelos ovários. O hormônio desempenha papel fundamental na regulação do centro de controle da temperatura corporal, localizado no hipotálamo. Com a diminuição dos níveis hormonais, o chamado “termostato cerebral” torna-se instável e passa a interpretar pequenas variações de temperatura como um superaquecimento, desencadeando respostas como dilatação dos vasos sanguíneos, aumento do fluxo sanguíneo e sudorese intensa. A sensação costuma surgir de forma súbita, principalmente acima do pescoço, acompanhada de rubor facial, transpiração e, em muitos casos, calafrios e mal-estar.

O tema ganhou repercussão recente nas redes sociais após viralizar um vídeo que mostra uma mulher aparentemente com a cabeça “saindo fumaça”. Embora seja uma representação exagerada, uma possível explicação fisiológica seria a evaporação do suor causada por uma onda intensa de calor corporal durante um fogacho.

A especialista destaca que os sintomas não devem ser minimizados. Além da sensação térmica desconfortável, os episódios podem vir acompanhados de taquicardia, fragmentação do sono, cansaço crônico, alterações de memória e dificuldade de concentração. A literatura científica também aponta impactos mais amplos na saúde. Pesquisas publicadas pela North American Menopause Society indicam associação entre fogachos intensos e maior ativação do sistema nervoso simpático, além de piora em marcadores de saúde vascular. Estudos observacionais vinculados ao National Institutes of Health sugerem ainda que sintomas vasomotores persistentes podem estar relacionados ao aumento do risco cardiovascular, especialmente quando associados a distúrbios do sono.

A doença cardiovascular, inclusive, é a principal causa de morte entre mulheres após a menopausa, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Nesse contexto, os fogachos deixam de ser apenas um incômodo térmico e passam a integrar um conjunto de alterações sistêmicas relacionadas à deficiência estrogênica. A transição menopausal pode iniciar a partir dos 40 anos, mesmo com ciclos menstruais ainda presentes, e nem todas as mulheres apresentam ondas de calor como primeiro sintoma. Insônia, irritabilidade, fadiga, lapsos de memória e queda do rendimento físico e mental também podem marcar essa fase inicial.

O manejo dos sintomas deve ser individualizado. A terapia hormonal é considerada o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores moderados a intensos, conforme posicionamento de sociedades médicas internacionais, especialmente quando iniciada na chamada janela de oportunidade ainda no climatério e em mulheres sem contraindicações. Além do alívio dos sintomas, a intervenção pode trazer benefícios adicionais, como proteção óssea e cardiovascular.

A médica reforça que o acompanhamento profissional é essencial, já que a indicação terapêutica não depende apenas de exames laboratoriais, mas de avaliação clínica completa, considerando idade, sintomas e histórico de saúde da paciente. Para mulheres que não podem utilizar terapia hormonal, existem alternativas não hormonais e mudanças no estilo de vida capazes de reduzir a frequência e a intensidade dos episódios.

Entre as medidas recomendadas estão a prática regular de atividade física, controle do peso corporal, redução do consumo de álcool e cafeína, cessação do tabagismo e manutenção de ambientes frescos durante o sono. Técnicas de respiração e estratégias de manejo do estresse também apresentam benefícios em parte das pacientes.

O consenso entre especialistas é que os fogachos não devem ser naturalizados como um preço inevitável do envelhecimento. Eles representam manifestações clínicas de um processo hormonal complexo, com repercussões que vão além do desconforto momentâneo. Informação qualificada e acompanhamento médico adequado são fundamentais para preservar a qualidade de vida e reduzir riscos associados à menopausa.

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